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sexta-feira, 7 de agosto de 2009

ENSINAMENTOS DE MARIA PADILHA DA ENCRUZILHADA DE FÉ



Em certo terreiro de Umbanda, num dia de gira de esquerda, o guia chefe do terreiro, convidou uma moça que havia ido visitar o terreiro, para fazer parte da gira, tudo corria normal quando a sua pomba gira de frente, antes de ir embora pediu permissão para falar a todos os presentes.



Permissão dada, ela começa a falar, deixando assistencia e alguns médiuns, diria eu incucados, enquanto o guia chefe, o Sr. Capa Preta, apenas pedia para que escutassem com atenção, ela amparada por ele, teceu este pequeno discurso:


- Andei meio indignada com tantas futilidades, não imaginam como fica difícil, seguir a nossa missão de ensinar que a Umbanda é uma religião.


Quando muito desanimo, penso nos Orixás amados, que em nós confiaram a importante missão, eles por sua vez quando estes filhos lhes ferem a sensibilidade, lembram-se de Pai Oxalá, lembram-se do Cristo Jesus, e em uma muda prece cicatrizam seus corações.


Porque julgam vocês que os guias foram feitos para satisfazer suas vontades, facilitar-lhes a vida, concretizar suas vinganças mesquinhas?


Porque acreditam os médiuns que são melhores que os outros só porque incorporam, ou tenham qualquer outro tipo de mediunidade?


Porque alguns julgam que raspando a cabeça e deitando, irão se tornar pais ou mães de terreiros?


Quem lhes disse que coisas materiais, ou qualquer sincretismo irão torná-los à altura de um líder religioso? Não sabem que para se tornar um líder tem-se que primeiramente obter evolução espiritual e que esta só vem através de reforma íntima?


Não sabem que o que importa é cumprir uma missão voltada para as necessidades espirituais de cada um, que muito útil é o médium que fica naquele cantinho do terreiro, simples, humilde, mas dono de uma grande firmeza que mesmo não atendendo nenhum consulente dá suporte para que o templo possa funcionar que sua firmeza proporciona condições de muitos serem atendidos sem mesmo terem aberto suas bocas.


Não imaginam que existem infinitos atendimentos feitos fora do terreiro, de tantos e tantos irmãos que por um motivo ou outro não podem se dirigir a um templo ou então não são umbandistas, mas são antes de tudo filhos de Deus Pai, e que nós espíritos trabalhadores sendo de qual seara for, que trabalhamos nas Leis do Pai, não nos importamos com a crença religiosa de cada um, vendo apenas a sua necessidade, e muito precisamos das energias positivas que devem ser emanadas durante os trabalhos espirituais, também aproveitamos os trabalhos para levar para ali espíritos trevosos ou não, endurecidos no ódio, muitos dos quais tão embrutecidos que precisamos do ectoplasma dos médiuns umbandistas, às vezes até da incorporação para que possam mais rapidamente tomar a forma humana, para então depois levá-los para as vias de evolução, ou seja entregá-los a Lei Maior.



Filhos procurem na Umbanda a evolução espiritual, esta é a primordial função de qualquer religião, vocês dirão então quando temos problemas materiais, quando uma faca nos atravessar o peito, não poderemos contar com os guias? Eu lhes responderei, claro que sim, sempre passaremos a força necessária, sendo permitido lhes abriremos os olhos, afastaremos as energias negativas segundo o merecimento de cada um, mas jamais poderemos interferir em seus carmas no direito de cada um do livre arbítrio.


A caridade deverá ser sempre a primeira preocupação de cada filho e as suas atitudes no dia a dia deverão sempre refletir o seu amor ao próximo.


Bem, já falei demais, existe muito trabalho a ser feito, sei que muitos escutaram sem ouvir, outros tantos ouviram, escutaram, mas duvidam que estas palavras partam realmente de mim, outros poucos escutaram, ouviram e estão a refletir, nestes o solo é fértil, e se ao menos um dentro desses poucos tentarem por em prática eu já me sentirei muito agradecida.


Aos que duvidam que estas palavras partam de mim, os convido a fazer um estudo sério sobre evolução na luz e evolução nas trevas, de qualquer forma sempre haverá médiuns sérios cujos guias os poderão esclarecer. 


Com uma gostosa gargalhada, Maria Padilha da Encruzilhada de Fé, girou e se foi.


No templo um silêncio, seu aparelho que era apenas uma visitante que havia sido convidada para participar, notou algo estranho, demoraram-se alguns minutos para o ritmo dos trabalhos voltar ao normal.


Quando após a gira alguém comentou sobre o acontecido, o aparelho de Maria Padilha sorriu, a conhecia há mais de trinta anos, ela não perderia a oportunidade, como dizia toda hora é hora de plantar, e a semeadura se faz urgente.



Ditado por Maria Padilha da Encruzilhada de Fé

psicografado por Luconi

 em 06-08-09

quinta-feira, 30 de julho de 2009

A VERDADEIRA LIBERDADE PAI TIÃO E PAI TOMÉ



Sou um velho, um velho bobo que sonhava com a liberdade, passei a vida com este sonho, nasci escravo, quando criança não tinha muita noção do fato, tive sorte minha mãe era a cozinheira da casa grande, e eu até os oito anos fiquei preso a sua saia, não tinha muito contato com minha gente, dormia junto com minha mãe num quarto destinado aos escravos que serviam dentro da casa.

Minhas horas de folguedo eram muitas, porque a sinhá tinha uma filha que tinha a minha idade, e como sinhá era boa permitia que brincássemos juntos pelos arredores da casa grande, mas tudo que é bom termina.

Um dia, ninguém entendeu o porquê, mas o patrão mandara chamar minha mãe e sem explicações, disse-lhe que me venderia, nada adiantou os rogos de sinhá, em poucos dias fui levado, para fazenda na mesma região.

Mais tarde soube que a decisão foi tomada porque o patrão envenenado pelo capataz, tinha medo que a minha amizade com a sinhazinha lhe trouxesse problemas futuros.

Na nova vida a moleza acabou como também minha infância, era bem desenvolvido devido ao fato de não ter vivido em senzala até então, como todo escravo da casa comia o que mamãe servia aos patrões, isto me dava grande vantagem na aparência em relação aos meninos criados desde o nascimento nas senzalas, imediatamente fui colocado para ajudar na colheita com a mesma carga horária desumana dos outros escravos.

A revolta ia se formando dentro do peito, fui tomando consciência da vida desumana de meus irmãos, tentei fugir bem umas três vezes, toda vez fui para o tronco, depois pão e água por dias, assisti a morte no tronco de alguns irmãos, partiam e deixavam para trás grande dor no peito de filhos e mulher, pois nem todos eram separados da família, diziam não ser rendoso para o trabalho separá-los.

Bem fui crescendo, os anos passando, e quando contava já com uns vinte anos, chegou à fazenda uma leva de escravos novos, entre eles estava um que se tornaria meu grande amigo, era Tião que há alguns anos havia vindo diretamente da África, lá era rei, aqui escravo, passara por uma fazenda onde ficara uns cinco anos e agora havia sido vendido devido a problemas financeiros do patrão que se desfizera de metade de seus escravos.

Aproximou-se de mim exatamente por causa de minha revolta, eu tinha tentado minha terceira fuga e havia saído do tronco naquele dia, todo arrebentado, sangrando, ele entrou na senzala sentou-se do meu lado e com umas ervas que colhera começou a fazer unguentos, aliviava a minha dor muito mais que as ervas que as mulheres preparavam, ao sabê-lo rei espantei-me, como um rei, se dispõe a tratar as feridas de um neguinho como eu, ainda mais sendo este um trabalho praticado pelas mulheres.

Tião estava sempre sorrindo, não só para nós, mas para todos tinha sempre uma atitude humilde e sua presença sempre impunha respeito, nem o capataz o importunava, eu me perguntava será que é pelo seu tamanho?
Certa vez, sendo sabedor que o filho do patrão adoecera, não pestanejou, na primeira oportunidade cercou-se dele e lhe ofereceu ajuda, ainda dizendo que se o sinhô não confiasse nele não tinha problema ele ensinava o que fazer e outra pessoa de sua confiança o faria.

Passado alguns dias o chamaram na casa grande, ele já foi levando as ervas, e para espanto geral o menino em três dias estava outro, desta forma ganhou a confiança dos brancos e não era raro ver o patrão trocando dedo de prosa com ele.

Depois de algum tempo nossa senzala foi melhorada, introduziram na nossa alimentação um pouco de carne e passaram a permitir que fizéssemos nossa roça para o plantio de alguns legumes e de mandioca.

 É aquele nego parecia ter nos ajudado, mas eu ainda queria fugir.

Estava exatamente planejando uma forma de fazê-lo quando ele se aproximou, e sem rodeios foi falando, está na sua cara que você vai fugir de novo. Eu rebelde como sempre, atirei-lhe na cara a sua covardia, onde já se viu rei que se transforma em escravo e ainda por cima amigo de branco.

Balançando a cabeça, disse-me que exatamente um rei tem que saber o que é melhor para o seu povo, e o seu povo ali era escravo, que culpa da situação tinha os de sua própria cor na África que os havia traído, entregando-os por um punhado de ouro na mão dos brancos.

Estes brancos carregavam o erro de tê-los comprado, mas se não fosse eles seriam outros brancos que o fariam, agora vejamos lá na África antes de ser rei fui instruído pelos mais velhos da tribo e também pelo pajé.

Nestes ensinamentos eu aprendi a amar e cultuar os Orixás Naturais, aprendi que nada nesta vida acontece sem a permissão de Olorum, e que para tudo existe um motivo, nada nesta vida é perdido, e tudo é feito para a nossa alma crescer.

Louco, insano é aquele que se deixa levar somente pela emoção, deve-se pensar com a razão, deve-se estudar os fatos seguindo sempre as leis dos Orixás, que é a lei de Olorum, e se Olorum nos coloca em determinado plantio é neste plantio que devemos trabalhar.

O que você ganhou até hoje com sua revolta, além do sofrimento do tronco e a perseguição do capataz, o que você trouxe de bom para o seu povo sofrido, além de espalhar a sua revolta e mais tarde a vingança do capataz em cima da nossa gente por sua causa? Nada, nada mesmo, acredito até que ao invés de crescer a sua alma diminuiu.

Dos meus olhos rolavam grossas lágrimas, do jeito que ele falava, parecia que eu tinha jogado fora minha vida até então, já ouvira coisas semelhantes dos velhos, mas eles pobres coitados não tinham como lutar, agora Tião ainda era forte apesar de já contar com uns cinqüenta anos, tinha nascido livre ao contrário de mim, e ainda por cima rei.

Ele com aquele jeito seu peculiar, abraçou-me, balançando a cabeça disse-me que viveria mais um bocado, mas eu mais novo que ele uns trinta anos, ficaria e precisaria seguir seus ensinamentos, suas mandingas e seu tratamento com as ervas, senão o seu povo ficaria desorientado de novo.

Não acreditei, ele me apontava como seu sucessor, eu um nego metido e revoltado, e mais uma vez ele me disse a revolta o tornou surdo para os bons sentimentos, sentimentos que trazes dentro de tua alma plantados por sua mãezinha, e és metido por causa de teu orgulho, que foi ferido quando deixastes de ser cria da casa do patrão e passou a ser apenas mais um numa senzala.

Como ele estava certo, lia dentro de mim melhor do que eu mesmo, e na verdade eu só tinha parado para ouvi-lo porque ali se encontrava alguém que tinha tido posição melhor que a minha, ele tinha sido um rei.

Bem muitos anos se passaram um dia meu amigo já muito velho partiu, quando sentiu que a hora estava chegando pediu ao sinhô que o deixasse construir um barraco, de madeira, perto do lindo lago que ladeava a fazenda, foi atendido, e um dia quando fui levar seus mantimentos, chamou-me e disse : Agora é só com você, se puder prepara alguém para quando chegar a tua hora.

Quis ficar ali, passar a noite, ele sorrindo dizia, é só velhice, é só velhice, a carne está cansada, a alma novinha em folha precisa de libertação, vá em paz, não se esqueça do que comigo aprendeu, continue colocando em prática, que quando chegar o dia da tua liberdade prometo que venho para libertar tua alma.

Abracei-o, beijei aquele rosto tão querido, que havia me ensinado a humildade, a ter paz, e com isso tornar a vida de meu povo menos sofrida, no dia seguinte quando voltei ele havia partido, seu corpo inerte, seu rosto com um lindo sorriso, levei a notícia ao sinhô que para o meu espanto deixou as lágrimas rolarem.

Depois daquele dia, sinhô passou a me procurar como dizia para um dedo de prosa, ia logo falando Tião se foi, mas deixou você para nosso consolo, em seu leito de morte anos após, chamou-me e apontando para o seu filho, que Tião havia salvado quando jovem, disse-lhe quando o coração apertar lembre-se deste preto velho, foi através de sábios conselhos que parei de praticar muitas injustiças e aliviei meu coração sempre.

Mais uns anos, sinhozinho permitiu que eu ocupasse a cabana de Tião, bem sucessor não foi difícil, rere! Minha querida nêga desencarnada em seu último parto, me dera onze filhos, cinco meninos e seis meninas, desde pequenos os ensinei, uns dois anos antes a Lei Áurea havia sido promulgada, e apenas dois continuaram na fazenda.

A minha alma se libertou de dia, ainda era cedo, um sono danado me deu, de repente lá estava Tião, havia prometido e cumpriu, muito rápido eu estava na Aruanda, e então descobri o que era liberdade, descobri que todo encarnado é escravo da carne, e pior que isso é escravo dos vícios que carrega na alma, estes sim são verdadeiras feridas abertas emanando muita energia negativa, que só através da reforma interior que através de Tião eu consegui realizar, é que conseguimos nos libertar realmente e então passarmos a nos sentir livres, o amor nos invade e a felicidade transborda.

Ah! Ocê  sabe o nome deste véio teimoso, salvo por Pai Tião, ora, ora, fia sou eu Pai Tomé.

Ditado por Pai Tomé de Aruanda
Psicografado por Luconi
em 30-07-09

sexta-feira, 24 de julho de 2009

O MEU ANTIGO TEMPLO



Freqüentava um terreiro que não era grande, éramos uns seis médiuns e dois cambônio todos muito unidos, realmente procurávamos sempre trabalhar voltados para o bem, tínhamos sempre muita dó do Chefe do Terreiro, porque apesar da assistência passar pelos nossos guias para consulta e passes, eles faziam sempre questão de irem ao pé dos guias do chefe, esperando sempre o preto-velho ou o baiano incorporar para pedirem diretamente a eles para serem ouvidos.

Por incrível que pareça faziam as mesmas perguntas que já haviam feito com os outros médiuns, ou davam um jeito de levarem alguma coisa para cruzar e diziam para isto tem que ser ele, tudo bem só que aproveitavam o momento para começarem longos diálogos, pior ainda quando começavam um rosário de sonhos, que já haviam contado para o guia que os havia atendido, desta forma a gira sempre se prolongava além do necessário.

Nada adiantava quando antes de iniciar a gira, um de nós, esclarecia que ali estavam para melhora espiritual, que para problemas materiais poderiam pedir proteção, desabafar, mas deveriam confiar no guia do médium que eles próprios haviam escolhido para consultar, ou tomar seus passes.

 Muito menos adiantava dizer a eles que o Pai apesar de novo tinha sérios problemas de pressão arterial e que deveríamos poupar a sua matéria, deixando para os seus guias apenas os trabalhos que os guias dos outros médiuns direcionassem para ele.

Nada adiantava cada um pensava só mais um pouquinho não custa nada, ou ora o meu problema é mais importante, ou não quero que ele trabalhe espiritualmente quero só conversar um pouco, e desta forma os abusos continuavam e os pedidos às vezes se tornavam absurdos.

O pior é que se os convidássemos para estudos, para aprenderem os pontos cantados, para participarem de alguma reunião para organização de alguma festa, eles perguntavam se os guias haveriam de vir, e ao respondermos que não, poucos diziam que viriam, e no dia marcado da assistência ninguém vinha, era raro.
Com isto aos poucos os médiuns mais antigos se cansavam, alguns mais novos se afastavam, pois na realidade os médiuns que vinham daquela assistência quando percebiam que mediunidade é missão, cumprida com amor através de muita doação e que nenhuma vantagem neste fato teriam, não seguiam em frente, e nosso grupo sempre retornava ao princípio os mesmos quatro médiuns que haviam iniciado, éramos conscientes que muita caridade nossos guias prestavam e isto para nós era o mais importante a parte da assistência que nunca se educava, que nos via como espetáculos, sabíamos que era nossa obrigação continuar tentando para que amadurecessem e procurassem ali sua evolução espiritual.

Trabalhamos dessa forma mais ou menos uns quinze anos, até que nosso querido Chefe, ou responsável pelo terreiro como ele fazia questão de dizer, pois era tão humilde que sempre se igualava a nós, adoeceu e aos poucos teve que se afastar, como na época já dois médiuns dos antigos mudaram-se para outra cidade, os que restaram não tinham confiança para continuarem, desta feita o nosso querido Templo fechou-se.

Hoje encontro algum desses filhos em outros terreiros e muito me orgulho disso, pois continuam com a essência pura procurando evoluir dentro da fé, praticando caridade pura, outros abandonaram a Umbanda, encontrando-se em outra doutrina religiosa, mas mesmo assim continuam tendo a proteção dos Orixás como qualquer ser vivente desta Terra.

Eu sinto saudades, do tempo em que participava de uma corrente onde os corações eram simples e puros, onde eu aprendi muitas coisas, principalmente que Maior é Deus e que nada nem ninguém deste mundo ou do outro nos afetará se nos mantivermos dentro das Leis Divinas, dentro da Caridade e principalmente da Humildade.

SARAVÁ PAI JOÃO DE ANGOLA, SARAVÁ ZÉ PILINTRA, SARAVÁ CAPA PRETA,
SARAVÁ A TODOS MEUS GRANDES AMIGOS,
OBRIGADA, OBRIGADA.

LUCONI
INSPIRADA PELOS GRANDES AMIGOS,
EM 24-07-09

sexta-feira, 17 de julho de 2009

MEU BONDOSO PRETO VELHO





Aqui estou de joelhos, agradecido, contrito, aguardando sua benção.



Quantas vezes com a alma ferida, com o coração irado, com a mente entorpecida pela dor da injustiça eu clamava por vingança, e Tu, oculto lá no fundo do meu Eu, com bondade compassiva me sussurravas: “ESPERANÇA”.





Quantas vezes desejei romper com a humanidade, enfrentar o mal com maldade, olho por olho, dente por dente, e Tu, escondido em minha mente, me dizias simplesmente:




“Sei que a maldade e a traição ferem o coração, mas, responder com ofensas, não lhe trará a solução. Pára, pensa, medita e ofereça-lhe o perdão. Eu também sofri bastante, eu também fui humilhado, eu também me revoltei, também fui injustiçado.



Das savanas africanas, moço, forte, livre, num instante transformado em escravo acorrentado, nenhuma oportunidade eu tive. Uma revolta crescente me envolvia intensamente, porque algo me dizia que eu nunca mais veria minha Aruanda de então, não ouviria a passarada, o bramir dos elefantes, o rugido do leão; minha raça de gigantes de que tanto orgulho tivera, jazia despedaçada, nua, fria, acorrentada num infecto porão.



Um ódio intenso o meu peito atormentava, porque OIÀ não mandava uma grande tempestade? Que Xangô com seus raios partisse aquela nave amaldiçoada, que matasse aquela gente, que tão cruel se mostrara, que até minha pobre mãezinha, tão frágil, já tão velhinha, por maldade acorrentara. E Iemanjá, onde estava que nossa desgraça não via, nossa dor não sentia, o seu peito não sangrava? Seus ouvidos não ouviam a súplica que eu lhe fazia? Se Iemanjá ordenasse, o mar se abriria, as ondas nos envolveriam; ao meu povo ela daria a desejada esperança, e aos que nos escravizavam a necessária vingança.



Porém, nada aconteceu, minha mãezinha não resistiu e morreu; seu corpo ao mar foi lançado, o meu povo amedrontado, no mercado foi vendido, uns pra cá, outros pra lá e, como gado, com ferro em brasa marcado. Onde é que estava Ogum? Que aquela gente não vencia? Onde estavam as suas armas, as suas lanças de guerra?



Porém, nada acontecia, e a toda parte que olhava, somente uma coisa via: terra.



Terra que sempre exigia mais de nossos corpos suados, de nossos corpos cansados. Era a senzala, era o tronco, o gato de sete rabos que nos arrancava o couro; era a lida, era a colheita que para nós era estafa, para o senhor era ouro. Quantas vezes, depois que o sol se escondia, lá no fundo da senzala, com os mais velhos, aprendia que no nosso destino no fim não seria sempre assim, quantas vezes me disseram que Zambi olhava por mim.



Bem me lembro uma manhã, que o rancor era grande, vi sair da casa grande a filha do meu patrão. Ingênua, desprotegida, meu pensamento voou: eis a hora da vingança, vou matar essa criança, vou vingar a minha gente, e se por isso morrer, sei que vou morrer contente.



E a pequena caminhava alegre, despreocupada, vinha em minha direção; como a fera aguarda a caça, eu esperava ansioso, minha hora era chegada. Eu trazia as mãos suadas, nesse momento odioso, meu coração disparava, vi o tronco, vi o chicote, vi meu povo sofrendo, apodrecendo, morrendo e nada mais vi então. Correndo como um possesso, agarrei-a por um braço e levantei-a do chão. Porém, para minha surpresa, mal ergui a menina uma serpente ferina, como se fora o próprio vento que fere o espaço, errando por minha causa; o seu bote foi tão fatal, tudo ocorreu tão de repente, tudo foi de forma tal, que ali parado eu ficara, olhando a serpente que sumia no matagal.



Depois, com a criança em meus braços, olhei meus punhos de aço que a deviam matar… olhei seus lindos olhinhos que insistiam em me fitar. Fez-me um gesto de carinho, eu estava emocionado, não sabia o que falar, não sabia o que pensar.



Meus pensamentos estavam numa grande confusão, vi a corrente, o tronco, as minhas mãos que vingavam, vi o chicote, a serpente errando o bote… senti um aperto no coração, as minhas mãos calejadas pelo machado, pela enxada, minhas mãos não matariam, não haveria vingança, pois meu Deus não permitira que morresse essa criança.



Assim o tempo passou, de rapaz forte de antes, bem pouca coisa restou, até que um dia chegou e Benedito acabou…, 
mas do outro lado da morte eu encontrei nova vida, mais longa, muito mais forte, mais de amor e de perdão, os sofrimentos de outrora já não importam agora, por que nada foi em vão… Fomos mártires nessa vida, desta Umbanda tão querida, religião do coração, da paz, do amor, do perdão”.



Pai Ronaldo Linares
Fonte: JUS – Jornal de Umbanda Sagrada

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